O Espelho Tem Duas Faces

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Ao longo da minha formação, aprendi que o espelho desempenha diferentes papéis, tanto na moda como na psicanálise, revelando sua complexidade e os efeitos psicológicos que pode ter.

Na Moda, o espelho é seu maior amigo. Na Psicanálise, seu inimigo.

Como estilista, o espelho me mostrou seu lado positivo, não só como objeto de trabalho, quando precisamos ajustar uma peça, seu caimento e visual, mas também no cuidado com a imagem, como recurso para maquiagens e penteados. Entretanto, após estudar psicanálise, descobri que o espelho tem outros significados, mais subjetivos e simbólicos, que são inerentes ao sujeito. Por exemplo, dentro do setting analítico, o psicanalista atua como uma espécie de espelho para o sujeito, devolvendo suas falas, sentimentos e emoções em forma de interpretações. Além disso, a teoria psicanalítica coloca o espelho no centro das questões do ego, tornando-o uma espécie de inimigo do sujeito.

Para a psicanálise, o espelho tem um papel ambivalente. Desde a formação do ego, quando a criança tem seu primeiro contato com o espelho, ela se reconhece não como parte de si, mas como uma idealização unificada e perfeita, criando uma imagem ilusória de si mesma que se perpetua na vida adulta. Uma imagem que não corresponde à realidade do nosso ser. Essa busca por uma imagem ideal pode levar à alienação e ao conflito interno, já que o sujeito constantemente se depara com a disparidade entre seu “eu” ideal e sua realidade imperfeita.

Nas redes sociais, esse processo é intensificado. As selfies funcionam como um espelho moderno, incentivando as pessoas a se verem como belas e a buscarem constantemente reconhecimento. Isso reforça o narcisismo e perpetua a ilusão de um EU perfeito, aumentando as tensões entre a autoimagem e a realidade.

A obsessão com a própria imagem e a busca por validação podem agravar o ciclo de insatisfação e alienação, tornando o espelho um objeto ambíguo, que pode servir tanto como um aliado como um inimigo, alimentando ilusões narcísicas e distorções da realidade.

A psicanálise tem o papel de confrontar o sujeito com sua realidade, desmistificando suas ilusões e encorajando-o a reconhecer e aceitar suas imperfeições, proporcionando uma visão mais equilibrada e saudável de si mesmo…

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